{"id":38,"date":"2023-06-12T12:15:19","date_gmt":"2023-06-12T15:15:19","guid":{"rendered":"https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/?p=38"},"modified":"2023-06-12T13:06:53","modified_gmt":"2023-06-12T16:06:53","slug":"a-queda-do-indice-de-bem-estar-psiquico-no-brasil-pos-pandemia-reafirma-a-importancia-da-relacao-trabalho-e-saude-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/?p=38","title":{"rendered":"A queda do \u00edndice de bem-estar ps\u00edquico no Brasil p\u00f3s pandemia reafirma a import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o trabalho e sa\u00fade mental"},"content":{"rendered":"\n<p>O Relat\u00f3rio Anual do Estado Mental no Mundo, publicado essa semana pelo O Globo, mostra que o mundo ainda n\u00e3o recuperou a queda no bem-estar ps\u00edquico observado na pandemia. Nesta pesquisa o Brasil ocupa o 3\u00ba pior \u00edndice de sa\u00fade mental dentro de um ranking de 64 pa\u00edses. Essas informa\u00e7\u00f5es refor\u00e7am a import\u00e2ncia de pensarmos com profundidade na rela\u00e7\u00e3o entre trabalho e sa\u00fade mental, uma vez que o trabalho em si e os novos modelos propostos podem levar a um enfraquecimento dos la\u00e7os sociais e a possibilidade de adoecimento ps\u00edquico. Logo, iniciamos este artigo com uma pergunta chave: at\u00e9 que ponto a sa\u00fade ps\u00edquica dos profissionais tem sido comprometida n\u00e3o somente pelo evento traum\u00e1tico, mas sobretudo pelas mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es e nos modelos de trabalho p\u00f3s-pandemia?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O trabalho \u00e9 uma atividade central na sua vida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho \u00e9 base constitutiva da cultura, podendo ser uma importante fonte de prazer ou de dor. \u00c9 respons\u00e1vel pelo estabelecimento de la\u00e7os sociais, fixando os trabalhadores firmemente \u00e0 realidade e fornecendo-lhes um lugar seguro na comunidade humana, conforme esclarece a Freud (1930).<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o trabalho possui um potencial de impactar diretamente a sa\u00fade dos trabalhadores, na medida em que pode levar a autorrealiza\u00e7\u00e3o ou ao sofrimento. Ambos podem ser causados por situa\u00e7\u00f5es experimentadas nos contextos organizacionais. Nesses, o confronto do trabalhador, em sua capacidade singular e subjetiva de produ\u00e7\u00e3o, com a flexibilidade ou com as restri\u00e7\u00f5es impostas pelo trabalho o exp\u00f5e a diferentes graus de satisfa\u00e7\u00e3o ou frustra\u00e7\u00e3o. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os psic\u00f3logos do trabalho e os psicanalistas t\u00eam observado em suas pesquisas um aumento das psicopatologias causadas pelo trabalho, sobretudo a partir da pandemia Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante resgatar historicamente que o trabalho passa a ocupar um lugar de centralidade na vida de homens e mulheres, a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e do consequente avan\u00e7o do capitalismo. Nesse contexto, h\u00e1 um est\u00edmulo cont\u00ednuo ao aumento da produtividade e \u00e0 obten\u00e7\u00e3o do m\u00e1ximo de resultado, na medida da valoriza\u00e7\u00e3o do capital. A introdu\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, da organiza\u00e7\u00e3o e dos m\u00e9todos de trabalho, das m\u00e1quinas, das tecnologias e dos sistemas de governan\u00e7a, por um lado, atendem \u00e0s necessidades de agilidade, qualidade e inova\u00e7\u00e3o. Por outro, contudo, podem tornar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho prop\u00edcias ao distanciamento do empregado em rela\u00e7\u00e3o ao produto do seu trabalho, ou ainda, mais abstratamente, dificultarem a articula\u00e7\u00e3o entre a contribui\u00e7\u00e3o do trabalhador aos objetivos da organiza\u00e7\u00e3o. A manuten\u00e7\u00e3o do trabalho vivo, isto \u00e9, aquilo que \u00e9 preciso inventar e acrescentar de si mesmo \u00e0s demandas das organiza\u00e7\u00f5es, como nos coloca Dejours (2002), torna-se essencial para sustentar esse la\u00e7o social t\u00e3o importante para a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, garantindo ao trabalhador um papel social contributivo e cr\u00edtico. Em face de qualquer vulnerabilidade, seja do contexto ou do trabalhador, as rela\u00e7\u00f5es de troca ficam comprometidas, abrindo um caminho para o aparecimento de sintomas, que caracterizam as doen\u00e7as do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que mudou na sua atividade de trabalho com o advento da pandemia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Covid-19 se configura como um evento disruptivo, uma cat\u00e1strofe \u2013 palavra que significa fim s\u00fabito, virada de expectativas \u2013 de cunho natural. A pandemia foi o resultado da migra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus para espa\u00e7os sociais urbanos, provocando consequ\u00eancias em torno das atividades de trabalho. Entre elas est\u00e3o as novas formas de trabalhar, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es, de adquirir conhecimentos, de desenvolver novos comportamentos. Destaca-se uma mudan\u00e7a significativa, a ado\u00e7\u00e3o do modelo de home office, que vem colocando em quest\u00e3o a centralidade do trabalho na vida das pessoas&nbsp;<em>vis \u00e0-vis<\/em>&nbsp;o resgate do espa\u00e7o para os interesses e para as rela\u00e7\u00f5es pessoais. Nesse sentido, o home office configurou-se como uma boa sa\u00edda para a situa\u00e7\u00e3o pand\u00eamica emergente, embora tenha colocado os trabalhadores diante de paradoxos, diante de escolhas dif\u00edceis entre trabalho e vida pessoal. As repercuss\u00f5es da cat\u00e1strofe e dos conflitos em cada sujeito colaboram para a adapta\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o aos novos modelos, cujo resultado vem se apresentando gradativamente no decorrer do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estudos indicam que a pandemia Covid-19 tem contribu\u00eddo para o aumento do adoecimento dos trabalhadores, sendo respons\u00e1vel pelo aparecimento de diversos sintomas. Como destaca Birman (2020), os sintomas s\u00e3o de tr\u00eas esp\u00e9cies: a) as neuroses de ang\u00fastia, denominadas no s\u00e9culo XX como s\u00edndrome do p\u00e2nico, na qual se manifesta ang\u00fastia real em estado puro; b) os sintomas hipocondr\u00edacos, reflexo da redobrada aten\u00e7\u00e3o do sujeito com o corpo e suas manifesta\u00e7\u00f5es naturais do dia a dia; c) a depress\u00e3o, fruto do isolamento f\u00edsico, que leva os sujeitos a sentirem um esvaziamento de sua pot\u00eancia existencial<strong>.<\/strong>&nbsp;Em todos esses quadros, verifica-se que a experi\u00eancia traum\u00e1tica, conforme nos revelou Freud, n\u00e3o pode ser totalmente assimilada enquanto ocorre. Sendo assim, s\u00e3o os fatores contingenciais, que ser\u00e3o capazes de mobilizar a hist\u00f3ria pessoal de cada um e delinear poss\u00edveis respostas, pois o trauma por si s\u00f3 \u00e9 estrutural \u2013 uma vez que \u00e9 uma experi\u00eancia dif\u00edcil de ser nomeada. Diante das mudan\u00e7as, da emerg\u00eancia desses sintomas e do comprometimento da produtividade no trabalho, a possibilidade da irrup\u00e7\u00e3o da s\u00edndrome de&nbsp;<em>burnout<\/em>&nbsp;\u00e9 aumentada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 atento para um poss\u00edvel aparecimento da sorrateira s\u00edndrome de&nbsp;<\/strong><em><strong>burnout<\/strong><\/em><strong>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sabido que at\u00e9 o final do s\u00e9culo passado os acidentes, a LER\/DORT e as intoxica\u00e7\u00f5es industriais ocupavam a posi\u00e7\u00e3o de protagonistas das doen\u00e7as ocupacionais. Paulatinamente, a aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as f\u00edsicas deu lugar a uma preocupa\u00e7\u00e3o cada vez maior com as doen\u00e7as ps\u00edquicas, motivadas pelos estados de cansa\u00e7o, esgotamento, estresse cr\u00f4nico e despersonaliza\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios das exig\u00eancias do modelo capitalista de produ\u00e7\u00e3o, que tornaram o ambiente percebido como vulner\u00e1vel, incerto, complexo e ansioso, levando, cotidianamente, o ser humano a se confrontar com seus pr\u00f3prios limites.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, essa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada pelas consequ\u00eancias do impacto do trauma da pandemia Covid-19 sobre os sujeitos, levando \u00e0&nbsp; s\u00edndrome de&nbsp;<em>burnout,<\/em>&nbsp;s\u00edndrome do estresse cr\u00f4nico, a ser reconhecida como doen\u00e7a ocupacional, pr\u00f3pria das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, e inclu\u00edda na CID-11, em 1\u00ba de janeiro de 2022. A s\u00edndrome, que faz o trabalhador \u201cperder o fogo\u201d, \u201cperder a energia\u201d, \u00e9 aquela na qual h\u00e1 uma perda de sentido em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, de forma que o trabalhador, especialmente aquele altamente motivado, ao tentar responder mais e mais \u00e0s exig\u00eancias da tecnoci\u00eancia e enfraquecido em sua possibilidade de sustentar la\u00e7os, entra em colapso, j\u00e1 n\u00e3o se importando mais e fazendo qualquer esfor\u00e7o parecer in\u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 esperado de voc\u00ea, das organiza\u00e7\u00f5es e do Estado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fato que o trauma causado pela pandemia e suas consequ\u00eancias sobre a sa\u00fade das pessoas est\u00e1 fazendo com que haja uma maior aten\u00e7\u00e3o da sociedade e das organiza\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental. As \u00e1reas de recursos humanos t\u00eam sido levadas a se debru\u00e7ar sobre esta pauta, a partir da demanda dos presidentes e das principais lideran\u00e7as das empresas, que se preocupam, como nunca relatado, com a sa\u00fade mental e a manifesta\u00e7\u00e3o de sintomas por parte de seus trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Submetidos a outros modelos de trabalho e ainda sob os impactos do trauma, s\u00e3o observadas no cotidiano de trabalho das equipes manifesta\u00e7\u00f5es de irritabilidade, estresse, esgotamento e depress\u00e3o. Estas ocorr\u00eancias t\u00eam sido coletivas, constatadas pelo registro de licen\u00e7as e afastamentos com a indica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as mentais ou s\u00edndrome de&nbsp;<em>burnout<\/em>. Consequentemente, a\u00e7\u00f5es concretas pela busca de psic\u00f3logos, psiquiatras e assistentes sociais para orienta\u00e7\u00e3o e efetivo tratamento t\u00eam sido observadas. Essa nova pauta, ainda que pare\u00e7a limitada a poucas empresas, se revela de grande import\u00e2ncia, pois trata da inclus\u00e3o pelas organiza\u00e7\u00f5es da dimens\u00e3o ps\u00edquica do humano, at\u00e9 ent\u00e3o pouco valorizada em sua complexidade e capacidade de comprometimento dos resultados organizacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Covid-19 coloca para as organiza\u00e7\u00f5es e para o Estado uma pauta in\u00e9dita, que \u00e9 a dos cuidados preventivos com a sa\u00fade mental e com o tratamento eficiente da doen\u00e7a, pois seus impactos em cada trabalhador e nos coletivos podem ser devastadores. \u00c9 hora de as empresas demostrarem sua capacidade de inova\u00e7\u00e3o na promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e pr\u00e1xis de sa\u00fade depois da grave cat\u00e1strofe mundial. Elas devem buscar solu\u00e7\u00f5es adequadas e singulares quando se fala de pessoas. Da mesma forma, os trabalhadores devem responsabilizar-se pelas suas escolhas, pela sua sa\u00fade e por seu desenvolvimento. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>BIRMAN, J.&nbsp;<strong>O trauma da pandemia do coronav\u00edrus:&nbsp;<\/strong>suas dimens\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, ecol\u00f3gicas, culturais, \u00e9ticas e cient\u00edficas. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>DEJOURS, C. Trabalho vivo. Tomo I,&nbsp;<strong>Sexualidade e Trabalho<\/strong>. Bras\u00edlia: Paralelo 15, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p>FREUD, S. O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/strong>. Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1930.<\/p>\n\n\n\n<p>JORNAL o GLOBO.&nbsp;<strong>Brasil tem terceiro pior \u00edndice de sa\u00fade mental em ranking de 64 pa\u00edses.&nbsp;<\/strong>Edi\u00e7\u00e3o de 01\/03\/2023.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Rosilene Ribeiro<\/strong><br>Doutora em psican\u00e1lise | Psicanalista | Consultora em rela\u00e7\u00f5es humanas e organizacionais | Professora<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Relat\u00f3rio Anual do Estado Mental no Mundo, publicado essa semana pelo O Globo, mostra que o mundo ainda n\u00e3o recuperou a queda no bem-estar ps\u00edquico observado na pandemia. Nesta pesquisa o Brasil ocupa o 3\u00ba pior \u00edndice de sa\u00fade mental dentro de um ranking de 64 pa\u00edses. 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