{"id":28,"date":"2023-06-12T12:01:23","date_gmt":"2023-06-12T15:01:23","guid":{"rendered":"https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/?p=28"},"modified":"2023-06-13T10:28:15","modified_gmt":"2023-06-13T13:28:15","slug":"teste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/?p=28","title":{"rendered":"HOME OFFICE: destino ou escolha?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"898\" height=\"600\" src=\"https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/1675092437789.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-81\" srcset=\"https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/1675092437789.jpg 898w, https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/1675092437789-300x200.jpg 300w, https:\/\/reschrh.com.br\/publicacoes\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/1675092437789-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 898px) 100vw, 898px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Na minha pesquisa e experi\u00eancia escutando pessoas e organiza\u00e7\u00f5es, provocando-as em suas demandas, tenho refletido e analisado sobre o home office e seu impacto nas rela\u00e7\u00f5es dos trabalhadores com o trabalho, com os seus l\u00edderes, com os times e com as organiza\u00e7\u00f5es. A multiplicidade de vozes, os significantes articulados e os diversos comportamentos demonstrados, em geral, sugerem uma resposta paradoxal \u00e0 situa\u00e7\u00e3o emergente, aos novos discursos e dispositivos adotados<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia Covid-19 se constitui em uma emerg\u00eancia, em um evento traum\u00e1tico, consequ\u00eancia de um choque violento que solapou a humanidade &#8211; o acaso que surge com a face da morte e do inimagin\u00e1vel. Semelhante \u00e0s guerras, ela \u00e9 respons\u00e1vel por tens\u00f5es sociais e culturais, assim como pela causa de mortes e adoecimentos f\u00edsicos e ps\u00edquicos relevantes. Isto porque, como revelou Freud,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>a experi\u00eancia traumatizante \u00e9 aquela que n\u00e3o pode ser totalmente assimilada enquanto ocorre, pois invade o aparelho ps\u00edquico, indo al\u00e9m dos limites da linguagem, sendo dif\u00edcil colocar palavras para explic\u00e1-la e simboliz\u00e1-la.&nbsp;A assimila\u00e7\u00e3o do trauma depende dos fatores contingenciais capazes de mobilizar a hist\u00f3ria pessoal de cada sujeito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica impactou em 2020 diretamente os mercados globais e o mundo do trabalho. Da noite para o dia, a economia mundial foi amea\u00e7ada, as bolsas de valores despencaram, e a continuidade do trabalho nos mesmos modelos at\u00e9 ent\u00e3o praticados foi transformada, na medida da necessidade do isolamento e distanciamento sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O home office, inicialmente uma alternativa de trabalho espor\u00e1dica e experimental, viabilizado pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, que permitiram o desenvolvimento e crescimento de modos de trabalho a dist\u00e2ncia sob o guarda-chuva do chamado&nbsp;<strong>teletrabalho<\/strong>, teve in\u00edcio nos EUA na d\u00e9cada de 70. O objetivo principal era reduzir os deslocamentos entre a casa e o trabalho e, nesse contexto, o Brasil regulamenta essa pr\u00e1tica em 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, na pandemia Covid-19 o home office \u00e9 imediatamente adotado como uma forma de manter o trabalho e preservar a vida, fazendo com que 11%* dos trabalhadores brasileiros vissem seus&nbsp;<strong>destinos<\/strong>&nbsp;marcados por essa nova modalidade, que rapidamente foi expandida e estabelecida como uma forma de trabalho permanente em muitas organiza\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse situa\u00e7\u00e3o, uma primeira pergunta se imp\u00f4s:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ser\u00e1 que uma decis\u00e3o precipitada em rela\u00e7\u00e3o a ado\u00e7\u00e3o do home office, como proposta de um novo modelo estabelecido de trabalho, contribuir\u00e1 para uma maior fragiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho ou, no dizer da psican\u00e1lise, dos la\u00e7os sociais em seu papel na constru\u00e7\u00e3o da subjetividade, naquilo que \u00e9 mais pr\u00f3prio e singular em cada trabalhador?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As pesquisas realizadas por ocasi\u00e3o do desenvolvimento de minha tese &#8211; \u201cHome office na pandemia Covid-19: uma an\u00e1lise interdisciplinar sobre os impactos no trabalho\u201d &#8211; verificaram que, prematuramente e precariamente, desenvolveu-se em meados de 2020 o embri\u00e3o de um novo modelo organizacional, que j\u00e1 havia sido fecundado h\u00e1 algum tempo. Efetivamente, o home office representa uma altera\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o do trabalhador e das organiza\u00e7\u00f5es com o trabalho, que envolve diversos quest\u00f5es a serem aprofundadas:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>mudan\u00e7a de local f\u00edsico;<\/li>\n\n\n\n<li>necessidade de recursos e suporte da empresa;<\/li>\n\n\n\n<li>isolamento do ambiente de trabalho;<\/li>\n\n\n\n<li>distanciamento f\u00edsico da hierarquia superior, da equipe direta e dos colegas;<\/li>\n\n\n\n<li>exposi\u00e7\u00e3o intensa a rotina familiar;<\/li>\n\n\n\n<li>complexidade na administra\u00e7\u00e3o do tempo: flexibilidade x intensidade;<\/li>\n\n\n\n<li>altera\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos profissionais e familiares;<\/li>\n\n\n\n<li>menor visibilidade pelas diversas \u00e1reas da organiza\u00e7\u00e3o;<\/li>\n\n\n\n<li>necessidades de a\u00e7\u00f5es de alinhamento e engajamento por parte das empresas;<\/li>\n\n\n\n<li>d\u00favidas das lideran\u00e7as sobre como fazer a gest\u00e3o das equipes;<\/li>\n\n\n\n<li>uso intensivo e extensivo de tecnologias;<\/li>\n\n\n\n<li>precariedade no desenvolvimento dos relacionamentos, da empatia, da carreira e do trabalho propriamente dito.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Alguns significantes s\u00e3o identificados como indicadores de&nbsp;<strong>d\u00favidas<\/strong>&nbsp;sobre a escolha do modelo de home office: objetifica\u00e7\u00e3o das pessoas, mecaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, falta da afetividade, espontaneidade e intimidade, controle dos trabalhadores pela tecnologia, \u00eanfase no processo e na robotiza\u00e7\u00e3o. Paralelamente, outros significantes s\u00e3o apontados como&nbsp;<strong>certezas<\/strong>&nbsp;do modelo home office: seguran\u00e7a pessoal, economia de tempo, ganho de objetividade e foco no trabalho, flexibilidade, equil\u00edbrio entre vida profissional, familiar e pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto a psicologia do trabalho como a psican\u00e1lise entendem que<\/p>\n\n\n\n<p><em>os la\u00e7os sociais e a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o do trabalho atrav\u00e9s do relacionamento com o Outro, da cultura e da linguagem, s\u00e3o os garantidores do sujeito ter algum n\u00edvel de prazer e satisfa\u00e7\u00e3o em fazer parte do grupo social, assim como s\u00e3o os que permitem aos trabalhadores desenvolverem mais e mais sua forma \u00fanica de trabalhar, suas compet\u00eancias, e agregar de forma cooperativa para o coletivo de trabalho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;As narrativas dos profissionais e das organiza\u00e7\u00f5es apontam para um discurso que comporta um paradoxo, pois s\u00e3o identificadas d\u00favidas e certezas, confortos e desconfortos em rela\u00e7\u00e3o as modalidades de trabalho. Uma tens\u00e3o permanente \u00e9 verificada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O novo modelo de trabalho, tratado pelas organiza\u00e7\u00f5es como estrat\u00e9gia a princ\u00edpio defensiva, mas talvez apressadamente sendo vista como adequada, definitiva e lucrativa, precisa ser analisada com cautela e profundidade. As organiza\u00e7\u00f5es, sobretudo as lideran\u00e7as e as \u00e1reas de recursos humanos, e o Estado necessitam estar atentos aos trabalhadores, que est\u00e3o experimentando o desconforte de um conflito, consciente ou inconsciente, frente a uma situa\u00e7\u00e3o paradoxal. Submetidos a uma nova organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, os profissionais obt\u00eam benef\u00edcios relacionados \u00e0 conquista de um espa\u00e7o social e de trabalho e, ao mesmo tempo, correm o risco de estarem sendo submetidos demasiadamente ao isolamento, \u00e0 solid\u00e3o, ao individualismo, a competitividade e ao desamparo. Ao se generalizarem as decis\u00f5es e as a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se deve perder de perspectiva o sujeito trabalhador em suas quest\u00f5es particulares. Uma pandemia se caracteriza por ser uma situa\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o e as respostas a ela tamb\u00e9m devem ser.<\/p>\n\n\n\n<p>A op\u00e7\u00e3o pelo&nbsp;<strong>trabalho h\u00edbrido<\/strong>&nbsp;indica uma escolha que busca lidar com o paradoxo. Por\u00e9m, depois de 670.000 mortes somente no Brasil, ap\u00f3s viver a perda de tantos amigos e familiares e lidar com muitos trabalhadores que ainda lutam com os sintomas da Covid longa, devemos recordar Freud, que coloca:<\/p>\n\n\n\n<p><em>os mecanismos de defesa nos fazem esquecer precocemente da cat\u00e1strofe, pois tamb\u00e9m nos abalamos diante dos acontecimentos terr\u00edveis dos quais somos expectadores e n\u00e3o somente quando a cat\u00e1strofe atinge algu\u00e9m que nos \u00e9 caro. Na medida em que h\u00e1 preju\u00edzos para a sa\u00fade do sujeito, seja f\u00edsica ou ps\u00edquica, sua capacidade de investimento no Outro e nos la\u00e7os de trabalho ficam prejudicadas. Isto porque a energia pulsional fica \u00e0 deriva e \u00e9 mobilizada para lidar com a situa\u00e7\u00e3o traumatizante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O trauma desorganiza o sujeito e requer o investimento de muita energia para tentar dar sentido ou deslocar aquele corpo estranho que o invadiu, e que precisa ser nomeado, a partir do campo do simb\u00f3lico e da linguagem. Esses desdobramentos colocam o sujeito numa condi\u00e7\u00e3o de isolamento subjetivo e, em alguma medida, o incapacitam para um outro investimento, ou seja, estabelecer la\u00e7os sociais em face de um novo modelo de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante destacar que, para al\u00e9m das intelig\u00eancias, identificamos&nbsp;em Dejour<\/p>\n\n\n\n<p><em>o desenvolvimento do conceito de que o trabalho tamb\u00e9m necessita do corpo, uma vez que o pr\u00f3prio trabalho intelectual n\u00e3o se reduz puramente a uma cogni\u00e7\u00e3o. A subjetividade e sua experi\u00eancia afetiva de sofrimento e prazer ocorrem em um corpo particular, no qual a experi\u00eancia subjetiva mais \u00edntima \u00e9 convocada para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho produtivo, assim como implica um trabalho voltado para si mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando esse corpo se isola, se distancia, se esconde por tr\u00e1s da tecnologia, algo da intelig\u00eancia se perde, a subjetividade constru\u00edda a partir dos est\u00edmulos e da presen\u00e7a do corpo deixa de se desenvolver e de se refazer desde a experi\u00eancia do trabalho, assim como outras intelig\u00eancias, que ainda n\u00e3o podemos nomear, podem surgir. Qual \u00e9 o tipo de \u201ccorpopropria\u00e7\u00e3o\u201d que ocorrer\u00e1 com a ado\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do home office?<\/p>\n\n\n\n<p>*dados da Pnad Covid<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Rosilene Ribeiro<\/strong><br>Doutora em psican\u00e1lise | Psicanalista | Consultora em rela\u00e7\u00f5es humanas e organizacionais | Professora<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha pesquisa e experi\u00eancia escutando pessoas e organiza\u00e7\u00f5es, provocando-as em suas demandas, tenho refletido e analisado sobre o home office e seu impacto nas rela\u00e7\u00f5es dos trabalhadores com o trabalho, com os seus l\u00edderes, com os times e com as organiza\u00e7\u00f5es. 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